THE RAVEONETTES - WHIP IT
ON Por uma vez, um disco e um grupo fazem jus ao "hype" que os precede. A banda que
alguma imprensa anglófila considera uma das melhores apostas para 2003 chama-se
The Raveonettes, vem da Dinamarca, e o álbum de estreia intitula-se "Whip It
On". São um duo: ela, Sharon Foo, toca baixo e canta; ele, Sune Rose Wagner,
toca guitarra e canta.
É mais do que um disco: é um conceito integrado.
A começar pelo "package" e pela capa, um panfleto nos tons dilectos do
rock’n’roll - vermelho, negro e branco, e com caracteres dos anúncios dos filmes
de série B dos anos 50. E cada um dos oito temas poderia dar uma sinopse para um
filme de ficção científica ou de "gangsters": "Attack of the ghost riders",
"Cops on our tail", "Bowels of the beast"...
Depois, não gastam mais
tempo do que o necessário: cada canção fica pouco acima ou abaixo da marca
canónica do single pop (três minutos), o que significa que "Whip it up" não dura
mais que 22 minutos. Mas que 22 minutos! Poderíamos chamar-lhe "psychobilly",
invocar os fantasmas de Howlin’ Wolf e Willie Dixon. Ou impor-lhes o pesado
fardo de serem os Cramps para o séc. XXI. Os Butthole Surfers também devem ter
culpas no cartório. E já agora os Suicide.
São oito canções de melodias
simples escondidas por baixo de guitarras envenenadas e da batida minimalista
roubada aos grandes duos com caixas de ritmos - Jesus & Mary Chain ou Carter
The Unstopabble Sex Machine. Mas não se pense que Foo e Wagner são saudosistas
retrógrados: os sons deste CD foram feitos em parte com o programa de computador
Protools e "samplers", que serviram para aumentar e sobrepor as guitarras e
baixo originais. E a produção, claro, é dos próprios Raveonettes.
Os
vocais desdenhosos de Sharon e Sune levam-nos para noites escuras e chuvosas em
cidades não recomendáveis, em que mutantes podem estar à espera em cada esquina
e cada dama só nos quer roubar a carteira. As primeiras palavras de "Attack of
the ghost riders" dizem tudo: "Lipstick on my face / Thunder in the sky / The
shades are drawn / Don’t ask me why."
Tal como orgulhosamente ostentam
na capa, todos os temas foram gravados no mesmo tom e não utilizaram mais de que
três acordes.Revelam um sarcasmo, um conhecimento visceral do rock’n’roll que,
se não tiverem gasto todos as munições (ideias e energia) nesta estreia, poderão
revelar-se uma força com que contar. TOP
NACIONAL